Publicado em 22 de janeiro de 2026 — Grupo de Otologia da Policlínica de Botafogo

Otosclerose e estapedotomia: quando a cirurgia pode ser indicada?

Compreenda a relação entre a otosclerose e a perda auditiva progressiva, e saiba quando a estapedotomia é o tratamento indicado.

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa. As informações não substituem a avaliação médica individualizada por especialista em Otologia.

A otosclerose é uma das causas mais frequentes de perda auditiva condutiva em adultos jovens. Apesar de ser pouco conhecida pelo público geral, afeta milhões de pessoas no mundo e tem uma solução cirúrgica com excelentes resultados: a estapedotomia. Neste artigo, explicamos como a doença se desenvolve, como é diagnosticada e quando a cirurgia é indicada.

O que é otosclerose?

A otosclerose é uma doença do osso que envolve o ouvido interno — a chamada cápsula ótica. Nessa condição, foci (focos) de osso anormal se formam ao redor do ouvido, podendo afetar especialmente a região da platina do estribo — a base do menor dos três ossículos da audição.

Quando esse crescimento ósseo anormal (foco otosclerótico) envolve a platina do estribo, ele progressivamente imobiliza o ossículo. O estribo, em condições normais, tem mobilidade fundamental para transmitir o som do ouvido médio para o ouvido interno. Quando ele fica fixo, o som não é transmitido adequadamente — e a audição diminui progressivamente.

Quem tem mais risco de desenvolver otosclerose?

A otosclerose tem características epidemiológicas específicas:

  • Hereditariedade: aproximadamente 25% dos casos têm histórico familiar. A doença apresenta herança autossômica dominante com penetrância variável.
  • Sexo: afeta mais mulheres do que homens, em proporção de aproximadamente 2:1.
  • Idade de início: os primeiros sintomas geralmente surgem entre os 15 e 45 anos.
  • Gravidez: em mulheres predispostas, a gravidez pode acelerar a progressão da doença.
  • Etnia: é mais prevalente em pessoas brancas; menos frequente em outras etnias.

Como a otosclerose se manifesta?

O sintoma mais característico é a perda auditiva progressiva, geralmente bilateral (nos dois ouvidos) — embora possa ser assimétrica. A perda costuma ser gradual, e muitos pacientes relatam percebê-la inicialmente em ambientes ruidosos.

Um sinal clínico curioso e relativamente específico é a paracusia de Willis: a melhora paradoxal da compreensão da fala em ambientes ruidosos. Isso ocorre porque, em locais barulhentos, as outras pessoas tendem a falar mais alto, o que beneficia o paciente com perda condutiva.

Ao exame, o tímpano tem aspecto completamente normal — o que pode gerar confusão se o profissional não estiver atento à otosclerose como diagnóstico possível.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico da otosclerose baseia-se na combinação de:

Audiometria tonal e vocal

Revela perda auditiva com "gap" aéreo-ósseo — a diferença entre a audição pela via aérea e pela via óssea — que é o achado característico das perdas condutivas. Um achado audiométrico clássico é o entalhe de Carhart, uma depressão artificial na via óssea na frequência de 2000 Hz.

Imitanciometria (timpanometria e reflexos estapedianos)

A timpanometria geralmente mostra curva As (redução da compliance), e os reflexos estapedianos estão ausentes — achados muito sugestivos de fixação do estribo.

Tomografia dos ossos temporais

Pode demonstrar o foco otosclerótico — uma área de menor densidade ao redor da platina do estribo — confirmando o diagnóstico.

Quando a estapedotomia é indicada?

A estapedotomia é o tratamento cirúrgico de referência para a otosclerose. Sua indicação é avaliada individualmente pelo especialista, considerando:

  • Grau e progressão da perda auditiva: perdas condutivas significativas com gap aéreo-ósseo importante são as mais beneficiadas
  • Bilateralidade: quando os dois ouvidos estão comprometidos, a indicação pode ser bilateral (geralmente em momentos diferentes)
  • Preferências do paciente: a decisão é sempre compartilhada com o paciente
  • Ausência de contraindicações: condições de saúde gerais e características anatômicas são avaliadas

O aparelho auditivo convencional é uma alternativa quando a cirurgia não é indicada ou quando o paciente prefere não se submeter ao procedimento.

O que é a estapedotomia?

A estapedotomia é uma microcirurgia realizada sob microscópio ou endoscópio, geralmente com anestesia local e sedação. O procedimento é feito pelo canal auditivo, sem incisão externa visível.

O cirurgião:

1. Afasta temporariamente o tímpano para expor o ouvido médio

2. Remove ou mobiliza o arco do estribo

3. Cria uma pequena abertura (fenestra) na platina do estribo

4. Insere uma prótese (piston) que conecta a bigorna à fenestra, restaurando a transmissão do som

Os resultados são excelentes: a grande maioria dos pacientes operados apresenta fechamento significativo do gap aéreo-ósseo e melhora auditiva substancial.

Perguntas Frequentes

Preciso parar de tomar anticoncepcional antes da estapedotomia?

Esta questão deve ser discutida com o cirurgião e com o médico responsável pela contracepção. O especialista orientará sobre os cuidados pré-operatórios específicos para cada paciente.

A estapedotomia pode ser feita nos dois ouvidos?

Sim. Quando a otosclerose afeta ambos os ouvidos com perda auditiva significativa, a cirurgia pode ser indicada nos dois, geralmente com intervalo de meses entre os procedimentos.

A melhora auditiva após a estapedotomia é imediata?

Muitos pacientes percebem melhora logo após a cirurgia, mas o resultado definitivo é avaliado algumas semanas a meses depois, quando o ouvido se recuperou completamente.

Existe risco de piorar a audição com a estapedotomia?

O risco de perda auditiva irreversível (surdez do ouvido operado) é baixo em cirurgiões experientes — menor que 1%. O especialista discute todos os riscos antes da decisão cirúrgica.

Posso usar aparelho auditivo em vez de operar?

Sim. O aparelho auditivo convencional é uma alternativa efetiva para compensar a perda auditiva da otosclerose. A escolha entre aparelho e cirurgia é feita em conjunto com o especialista, considerando as preferências e características de cada paciente.

Saiba mais sobre Otosclerose

A otosclerose é uma das principais causas de perda auditiva condutiva em adultos e possui características próprias de diagnóstico e tratamento. Para informações mais detalhadas sobre sintomas, exames, cirurgia de estapedotomia e dúvidas frequentes, visite nosso portal dedicado ao tema.

➡ Portal especializado em otosclerose

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