Publicado em 18 de fevereiro de 2026 — Grupo de Otologia da Policlínica de Botafogo

Otite média crônica: sintomas, riscos e tratamento

A otite média crônica é uma inflamação persistente da orelha média que pode permanecer estável por anos ou evoluir com perda auditiva progressiva. Entenda os riscos, o diagnóstico e as opções de tratamento.

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa. As informações não substituem a avaliação médica individualizada por especialista em Otologia.

A otite média crônica é uma inflamação persistente da orelha média que vai muito além das infecções de ouvido comuns. Diferente da otite aguda — que causa dor intensa e se resolve em dias — a otite média crônica pode permanecer relativamente silenciosa por muitos anos, enquanto provoca alterações estruturais progressivas que afetam a audição e a qualidade de vida. Reconhecê-la precocemente e tratá-la adequadamente faz toda a diferença no prognóstico.

O que é otite média crônica?

A otite média crônica é definida como uma inflamação de longa duração da orelha média, geralmente associada a uma ou mais das seguintes condições: perfuração persistente do tímpano, infecções recorrentes da orelha média, ou sequelas de infecções antigas que deixaram cicatrizes, retrações ou alterações na membrana timpânica.

Em muitos pacientes, a doença permanece estável por anos com poucos ou nenhum sintoma — especialmente quando a perfuração é pequena e não há infecção ativa. Em outros casos, ocorrem episódios frequentes de infecção (chamados de otorreia), com saída de secreção pelo ouvido e agravamento progressivo da perda auditiva.

O denominador comum é a presença de uma alteração estrutural na orelha média que não se resolve espontaneamente e que, sem acompanhamento e tratamento adequados, tende a evoluir de forma desfavorável.

Formas de doença da orelha média: entendendo as diferenças

Para compreender a otite média crônica, é importante diferenciá-la de outras condições que também acometem a orelha média, pois cada uma tem características, evolução e tratamento distintos:

Otite média aguda: infecção bacteriana ou viral de instalação rápida, com dor, febre e sensação de pressão no ouvido. Geralmente se resolve em dias a semanas com tratamento adequado, sem deixar sequelas estruturais na maioria dos casos.

Otite média com efusão (otite serosa): caracterizada pelo acúmulo de líquido atrás da membrana timpânica sem sinais de infecção aguda. A membrana timpânica permanece íntegra, mas a presença de líquido na orelha média compromete a transmissão do som. Essa condição é particularmente frequente na infância e pode causar perda auditiva condutiva temporária, atraso no desenvolvimento da linguagem em alguns casos e redução do rendimento escolar devido à dificuldade de escutar adequadamente em sala de aula. Diferente da otite média crônica, a otite com efusão não cursava com perfuração timpânica nem com secreção pelo ouvido.

Otite média crônica não colesteatomatosa: a forma mais comum de otite média crônica. Caracterizada por perfuração persistente da membrana timpânica, com ou sem episódios de otorreia. A estrutura óssea da orelha média está preservada ou apresenta alterações leves a moderadas. É tratável, com boas perspectivas de resultado cirúrgico.

Otite média crônica colesteatomatosa: a forma mais grave. O colesteatoma — acúmulo progressivo de células de pele no interior da orelha média e/ou mastoide — destrói estruturas ósseas e pode causar complicações sérias se não tratado cirurgicamente. Exige abordagem especializada e seguimento rigoroso após a cirurgia.

Quais são as principais causas?

A otite média crônica pode ter origem em episódios prévios de otite média aguda tratados inadequadamente, mas sua ocorrência é multifatorial. Diversos fatores podem contribuir para o desenvolvimento da doença, incluindo alterações da tuba auditiva, infecções recorrentes na infância, retrações da membrana timpânica, perfurações persistentes do tímpano, predisposição individual e condições inflamatórias crônicas da orelha média.

O adequado funcionamento da tuba auditiva é fundamental para a ventilação da orelha média. A tuba auditiva conecta a orelha média à nasofaringe e atua como um mecanismo de equalização de pressão. Alterações desse mecanismo — sejam anatômicas, inflamatórias ou funcionais — podem favorecer pressão negativa dentro da orelha média, retrações progressivas da membrana timpânica e o desenvolvimento de diferentes formas de doença otológica crônica.

Quais são os principais sintomas?

Os sintomas da otite média crônica variam conforme o estado da doença. Nos períodos de maior atividade, podem incluir:

  • Perda auditiva: frequentemente do tipo condutiva, causada pela alteração na membrana timpânica ou nos ossículos da audição. O paciente percebe dificuldade para ouvir conversas, especialmente em ambientes com ruído.
  • Saída de secreção pelo ouvido (otorreia): um dos sinais mais característicos. A secreção pode ser límpida, mucosa ou purulenta, e costuma reaparecer após contato com água ou durante resfriados.
  • Mau cheiro: a secreção proveniente de infecções crônicas frequentemente tem odor fétido, o que pode causar constrangimento social ao paciente.
  • Sensação de ouvido tampado: semelhante à sensação de pressão, relacionada à disfunção da tuba auditiva ou ao acúmulo de secreção na orelha média.
  • Zumbido ocasional: alguns pacientes relatam zumbido (tinnitus) associado à perda auditiva ou às infecções ativas.
  • Desconforto ou dor durante períodos de infecção ativa: embora a dor intensa seja mais típica da otite aguda, episódios de exacerbação da otite crônica podem cursar com desconforto e sensibilidade na região do ouvido.

É importante destacar que alguns pacientes convivem com a otite média crônica por muitos anos apresentando poucos sintomas. A ausência de dor não significa que a doença esteja controlada — a avaliação periódica com otologista é fundamental para monitorar a evolução.

Por que a otite média crônica não deve ser negligenciada?

A presença de uma perfuração timpânica ou de inflamação persistente na orelha média não é apenas um problema estético ou de conforto. Sem acompanhamento e tratamento adequados, a otite média crônica pode favorecer uma série de complicações:

  • Novos episódios infecciosos: a perfuração timpânica funciona como uma porta de entrada para bactérias, especialmente após contato com água. Infecções repetidas agravam a inflamação e podem acelerar a progressão da doença.
  • Piora progressiva da audição: cada episódio infeccioso e cada alteração estrutural que se acumula pode contribuir para o comprometimento crescente da capacidade auditiva.
  • Lesão dos ossículos da audição: a cadeia ossicular (martelo, bigorna e estribo) é particularmente vulnerável ao processo inflamatório crônico. A erosão ou fixação dos ossículos resulta em perda auditiva condutiva que pode ser significativa.
  • Formação de retrações timpânicas: em alguns casos, a membrana timpânica não perfura, mas se retrai progressivamente para dentro da orelha média, podendo aderir às estruturas internas e dificultar o tratamento.
  • Desenvolvimento de colesteatoma: em uma parcela dos pacientes, células de pele migram através da perfuração ou da retração e se acumulam na orelha média, formando um colesteatoma — condição mais grave que exige cirurgia.

É fundamental esclarecer: nem toda otite média crônica evolui para colesteatoma. A maioria dos pacientes não desenvolve essa complicação. No entanto, o risco existe, e o acompanhamento regular com um otologista é a única forma de detectar precocemente qualquer mudança no comportamento da doença.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico da otite média crônica é eminentemente clínico, baseado na história do paciente e em exames específicos realizados pelo otologista. Não existe um exame de sangue ou marcador laboratorial que confirme o diagnóstico — a avaliação especializada é insubstituível.

História clínica

O médico investiga há quanto tempo o paciente tem episódios de otorreia, se já teve infecções de ouvido na infância, se já realizou tratamentos anteriores e como evoluiu. A história clínica detalhada orienta toda a investigação subsequente.

Otoscopia

O exame do canal auditivo externo e da membrana timpânica com otoscópio permite identificar perfurações, secreção, retrações e alterações de coloração que indicam doença ativa.

Vídeo-otoscopia

Recurso que permite ampliar e documentar em vídeo a imagem do tímpano e do canal auditivo, facilitando o acompanhamento da evolução e a comunicação com o paciente sobre o que está sendo observado.

Audiometria

Exame fundamental para quantificar o grau e o tipo de perda auditiva presente. A audiometria permite diferenciar a perda condutiva (relacionada a alterações na orelha média) da perda neurossensorial (relacionada ao ouvido interno), orientando tanto o tratamento quanto o prognóstico auditivo.

Tomografia computadorizada dos ossos temporais

Indicada quando há suspeita de doença da mastoide, erosão óssea ou colesteatoma. A tomografia fornece imagens detalhadas das estruturas ósseas da orelha média e da mastoide, sendo essencial para o planejamento cirúrgico quando a operação é necessária.

Existe tratamento clínico?

Sim. O tratamento clínico é importante e tem papel central no manejo da otite média crônica, especialmente para controlar os episódios de infecção e manter a doença estável. Pode incluir:

  • Limpeza do ouvido (toilet auricular): realizada pelo otologista com instrumental adequado, remove secreções e crostas do canal auditivo e da orelha média, criando condições mais favoráveis para a cicatrização e para a ação dos medicamentos.
  • Cuidados locais: aplicação de gotas auriculares com antibiótico, antifúngico ou anti-inflamatório conforme a necessidade de cada caso.
  • Antibióticos quando indicados: podem ser prescritos por via oral ou tópica durante os episódios de infecção ativa.
  • Medidas para evitar entrada de água: o uso de protetores auriculares durante o banho e a evitação de mergulhos são orientações importantes para reduzir o risco de novas infecções.

É importante que o paciente compreenda: o tratamento clínico nem sempre corrige a perfuração timpânica nem restaura a audição. Ele controla a inflamação e previne complicações, mas a resolução definitiva da perfuração ou da perda auditiva condutiva geralmente requer abordagem cirúrgica.

Quando a cirurgia pode ser indicada?

A cirurgia é considerada pelo otologista principalmente quando existe uma ou mais das seguintes situações:

  • Perfuração persistente do tímpano: que não fechou espontaneamente e que expõe a orelha média a infecções repetidas.
  • Perda auditiva associada: especialmente quando a perda é significativa e compromete a qualidade de vida ou o desenvolvimento (em crianças).
  • Infecções recorrentes: que não respondem adequadamente ao tratamento clínico ou que interferem na rotina do paciente.
  • Presença de retrações timpânicas: que ameaçam progredir para colesteatoma ou que já comprometem a cadeia ossicular.
  • Suspeita ou confirmação de colesteatoma: condição que exige sempre tratamento cirúrgico.

A decisão cirúrgica é individualizada e leva em conta a extensão da doença, o estado geral da orelha média, a audiometria, a idade e as condições clínicas do paciente.

Timpanoplastia: o principal tratamento cirúrgico

A timpanoplastia é a cirurgia mais realizada para o tratamento da otite média crônica com perfuração timpânica. Seu objetivo principal é reconstruir a membrana timpânica, utilizando um enxerto — geralmente retirado da própria fáscia do músculo temporal do paciente — para fechar a perfuração de forma duradoura.

Os objetivos da timpanoplastia são:

  • Fechar a perfuração timpânica: eliminando a porta de entrada de infecções e tornando possível o contato normal com água.
  • Proteger a orelha média: restaurando a barreira que separa o canal auditivo externo da orelha média.
  • Possível melhora auditiva: quando a perda auditiva é predominantemente condutiva e a cadeia ossicular está íntegra, o fechamento da perfuração frequentemente resulta em melhora da audição.

É importante que o paciente tenha expectativas realistas: o resultado auditivo da timpanoplastia depende do estado da orelha média e dos ossículos. Quando há erosão ou fixação ossicular, pode ser necessária uma reconstrução da cadeia ossicular (ossiculoplastia) no mesmo tempo cirúrgico ou em uma segunda etapa.

Quando é necessária uma mastoidectomia?

Em alguns casos, o processo inflamatório crônico não se limita à orelha média — ele se estende à mastoide, a estrutura óssea localizada atrás da orelha que se comunica com a orelha média. Quando isso ocorre, apenas a timpanoplastia pode não ser suficiente.

A mastoidectomia é o procedimento que remove o tecido doente da mastoide, criando condições para o controle da inflamação e para o sucesso da reconstrução timpânica. Em casos de colesteatoma, a mastoidectomia é sempre necessária, pois o objetivo é remover completamente o tecido anormal para evitar recidiva e progressão da doença.

A extensão da mastoidectomia varia conforme o caso. O otologista escolhe a técnica mais adequada — fechada ou aberta — com base na extensão da doença e nos objetivos do tratamento.

A audição pode melhorar após o tratamento?

Sim. Muitos pacientes apresentam melhora auditiva após o tratamento cirúrgico da otite média crônica. O fechamento da perfuração timpânica por si só já pode resultar em ganho auditivo significativo quando a perda era predominantemente condutiva.

No entanto, os resultados dependem de vários fatores:

  • Estado da membrana timpânica: perfurações maiores ou com bordas fibróticas têm resultado levemente inferior às perfurações menores.
  • Integridade da cadeia ossicular: quando os ossículos estão íntegros, a melhora auditiva após a timpanoplastia tende a ser maior.
  • Extensão da doença: orelhas com inflamação crônica mais intensa ou com acometimento do ouvido interno podem ter resultado auditivo mais limitado.
  • Tempo de evolução: quanto mais precoce o tratamento, maiores as chances de preservação ou melhora auditiva.

O acompanhamento audiométrico após a cirurgia é parte essencial do cuidado, permitindo avaliar o resultado e identificar a necessidade de complementação do tratamento.

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O Grupo de Otologia da Policlínica de Botafogo, sob coordenação do Dr. Marcelo Tepedino Jr., realiza avaliação especializada da otite média crônica — desde o diagnóstico detalhado até o planejamento cirúrgico individualizado. Se você apresenta histórico de infecções de ouvido, saída de secreção ou perda auditiva, agende sua consulta com um otologista no Rio de Janeiro.

Perguntas Frequentes

Otite média crônica tem cura?

Sim. Com o tratamento adequado — clínico para controle das infecções e, quando indicado, cirúrgico para correção da perfuração e das alterações estruturais — a maioria dos pacientes alcança estabilização ou resolução da doença. O prognóstico depende da extensão do acometimento e do tempo de evolução até o tratamento.

Toda perfuração timpânica precisa operar?

Não necessariamente. Algumas perfurações pequenas, estáveis e sem infecções recorrentes podem ser acompanhadas clinicamente. A indicação cirúrgica é individualizada e leva em conta o tamanho da perfuração, a presença de perda auditiva, a frequência das infecções e as condições gerais da orelha média. O otologista é quem avalia cada caso.

Posso entrar no mar ou piscina com o ouvido perfurado?

O contato com água — especialmente água suja ou contaminada — aumenta significativamente o risco de infecção em ouvidos com perfuração timpânica. O uso de protetores auriculares adequados pode reduzir esse risco, mas a orientação definitiva deve vir do seu otologista, que avaliará cada caso individualmente.

A perda auditiva pode piorar com o tempo?

Sim, se a doença não for tratada. A inflamação crônica, as infecções repetidas e a progressão de retrações ou colesteatoma podem causar erosão dos ossículos e comprometimento crescente da audição. O tratamento precoce é a melhor forma de preservar a capacidade auditiva.

Quando devo procurar um otologista?

Sempre que houver saída de secreção pelo ouvido — mesmo que esporádica —, sensação persistente de ouvido tampado, perda auditiva progressiva ou histórico de infecções de ouvido repetidas. O otologista é o especialista dedicado ao diagnóstico e tratamento das doenças do ouvido, incluindo a cirurgia de ouvido no Rio de Janeiro.

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