Publicado em 10 de janeiro de 2026 — Grupo de Otologia da Policlínica de Botafogo

Colesteatoma: por que o tratamento costuma ser cirúrgico?

Entenda o que torna o colesteatoma uma condição que raramente responde a tratamentos clínicos e por que a cirurgia é quase sempre necessária.

Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa. As informações não substituem a avaliação médica individualizada por especialista em Otologia.

O colesteatoma é uma das condições mais sérias tratadas em Otologia. Apesar de não ser um tumor maligno, seu comportamento progressivo e destrutivo torna o tratamento cirúrgico praticamente inevitável na maioria dos casos. Neste artigo, explicamos o que é o colesteatoma, por que ele se comporta dessa forma e por que a cirurgia é a principal forma de tratamento.

O que é o colesteatoma?

O colesteatoma é um acúmulo anormal de células de pele (epitélio escamoso queratinizado) dentro do ouvido médio ou da mastoide. Em condições normais, as células da pele do canal auditivo se renovam e migram naturalmente para fora do ouvido. No colesteatoma, esse processo ocorre de forma anômala: as células se acumulam em camadas dentro do ouvido médio, formando uma massa que cresce progressivamente.

Essa massa não é inerte. Ela produz enzimas (colagenases e outras proteases) que têm a capacidade de dissolver o osso ao redor, destruindo as estruturas do ouvido médio e da mastoide com o tempo.

Por que o colesteatoma não responde a antibióticos?

Muitos pacientes chegam ao consultório acreditando que o colesteatoma poderia ser tratado com antibióticos ou medicamentos. A lógica é compreensível — antibióticos funcionam para infecções de ouvido, então por que não para o colesteatoma?

A resposta está na natureza da condição. O colesteatoma não é uma infecção — é uma acumulação de células de pele. Antibióticos podem controlar infecções secundárias associadas ao colesteatoma (responsáveis pela otorreia com odor), mas não têm qualquer efeito sobre a massa de células descamativas em si.

Não existe medicamento capaz de dissolver ou fazer regredir o colesteatoma. A única forma de tratar a doença é a remoção cirúrgica completa.

O que acontece se o colesteatoma não for tratado?

O colesteatoma cresce de forma lenta, mas contínua. Com o tempo, pode comprometer progressivamente as estruturas do ouvido:

Perda auditiva progressiva

A erosão dos ossículos da audição — especialmente a bigorna, o ossículo mais vulnerável — causa perda auditiva condutiva que tende a piorar conforme a doença avança.

Erosão da mastoide

O colesteatoma pode se estender para a mastoide, destruindo suas células aéreas e criando doença mais extensa que exige cirurgia mais ampla.

Comprometimento do nervo facial

O nervo facial percorre um canal ósseo dentro do osso temporal. Quando o colesteatoma erode esse canal, pode comprimir o nervo, causando fraqueza ou paralisia dos músculos do rosto.

Danos ao labirinto ósseo

A erosão do labirinto pode causar perda auditiva neurossensorial — frequentemente irreversível — e desequilíbrio.

Complicações intracranianas

Em casos avançados não tratados, o colesteatoma pode ultrapassar as paredes do osso temporal e atingir estruturas intracranianas, podendo causar meningite, abscesso cerebral e trombose do seio sigmoide. Estas são complicações graves que podem colocar a vida em risco.

A cirurgia de colesteatoma

O objetivo da cirurgia é a remoção completa do colesteatoma, erradicando a doença e prevenindo suas complicações. A cirurgia mais utilizada é a timpanomastoidectomia, que aborda tanto o ouvido médio quanto a mastoide.

Existem duas abordagens principais:

Técnica fechada (canal wall up): preserva a parede posterior do canal auditivo, mantendo a anatomia. Vantagem: menor impacto na qualidade de vida pós-operatória. Desvantagem: maior dificuldade de visualização de toda a doença, com possibilidade de doença residual — frequentemente exigindo segunda cirurgia programada.

Técnica aberta (canal wall down): remove a parede posterior do canal. Vantagem: excelente visualização e menor risco de doença residual. Desvantagem: cria uma cavidade que requer limpeza periódica com o especialista.

A escolha da técnica depende da extensão da doença, das condições anatômicas e da experiência do cirurgião.

A importância do diagnóstico precoce

Quanto mais cedo o colesteatoma é identificado e tratado, menores são as estruturas comprometidas e melhores são os resultados cirúrgicos — tanto em termos de erradicação da doença quanto de preservação auditiva.

Pacientes com otorreia persistente, perda auditiva progressiva em um ouvido ou histórico de otite crônica devem buscar avaliação com especialista em Otologia.

Perguntas Frequentes

O colesteatoma pode desaparecer sem cirurgia?

Não. O colesteatoma não regride espontaneamente e não responde a tratamentos clínicos. A remoção cirúrgica completa é o único tratamento efetivo.

A cirurgia de colesteatoma é urgente?

A urgência varia conforme a extensão da doença e a presença de complicações. Em geral, é uma cirurgia eletiva que deve ser realizada em tempo razoável para evitar progressão da doença.

O colesteatoma pode voltar após a cirurgia?

Sim, existe possibilidade de doença residual (doença que persiste após a cirurgia) ou recidiva (reaparecimento). Por isso, o acompanhamento pós-operatório regular é fundamental, e em muitos casos uma segunda cirurgia de revisão é programada.

Como é feito o diagnóstico de colesteatoma?

O diagnóstico é feito pela avaliação do especialista em Otologia com otomicroscopia e confirmado pela tomografia dos ossos temporais, que avalia a extensão da doença.

Crianças podem ter colesteatoma?

Sim. O colesteatoma congênito ocorre em crianças sem história prévia de infecção. O colesteatoma adquirido também pode surgir na infância, geralmente associado a otites de repetição e disfunção da tuba auditiva.

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